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Já pensou em garantir a aposentadoria investindo em ações?

Especialistas dão sugestões de como montar uma carteira de olho nos próximos 10, 15 ou 20 anos

Nathália Ferreira - AE

A forma mais comum de planejar a renda da aposentadoria é fazer um plano de previdência privada. Mas existe outra opção, ainda pouco usual entre os brasileiros, quando se trata de guardar dinheiro para o futuro. O investidor pode destinar parte de seus recursos para a bolsa de valores e montar uma carteira de ações de olho nos próximos 10, 15 ou 20 anos.

Como o horizonte é longo, especialistas sugerem adotar alguns critérios na hora de selecionar os papéis. A montagem da carteira começa com a escolha de empresas que tenham histórico de crescimento e que sejam boas pagadoras de dividendos.

A avaliação do cenário macroeconômico também é importante, especialmente porque existem muitas incertezas no longo prazo. Os especialistas estão otimistas quanto às perspectivas para o desenvolvimento do Brasil, mas ponderam que ainda há uma forte preocupação com uma possível recessão nos Estados Unidos e como isso poderia impactar outros países.

Setores tradicionais

Diante de um cenário incerto, especialistas consultados pela AE Investimentos recomendam que não podem faltar na carteira ações de setores mais tradicionais, como petróleo, mineração, siderurgia e bancos. São empresas que devem ter bom desempenho, não só embaladas pelo desenvolvimento econômico do Brasil, mas também pelo contínuo crescimento do setor em que estão inseridas.

Os setores de petróleo e mineração são considerados essenciais para o desenvolvimento do País, lembra o assessor de investimentos da corretora Souza Barros, Luiz Roberto Monteiro. "Ainda seremos muito dependentes de petróleo, cobre, níquel e chumbo", diz. Em relação ao setor bancário, a oferta de crédito em expansão poderá trazer cada vez mais lucro para as instituições financeiras.

É importante, no entanto, o investidor acompanhar o mercado e a economia nos próximos anos para verificar se há mudanças nas perspectivas e se vale a pena ou não rever as posições em ações.

Carteira arrojada

Para os investidores mais agressivos e que gostariam de adicionar um pouco de risco na carteira, vale acompanhar ações que não estão nos setores tradicionais. O sócio da TAG Investimentos, Thiago Castro, acredita que algumas empresas que faturam hoje abaixo de R$ 1 bilhão poderão ter crescimento expressivo nos próximos anos.

"Na nossa visão, vão surgir muitas oportunidades entre as small caps, empresas que ainda não foram analisadas pela indústria de pesquisa no Brasil", diz.

Isso deve acontecer porque há expectativa de o País receber uma melhor avaliação das agências de classificação de risco e chegar ao grau de investimento, o que deverá atrair novos investidores externos.

"Como fundos externos poderão começar a investir aqui, haverá um número maior de empresas listadas na bolsa sendo analisadas", explica.






Ações para a aposentadoria

06.09.2007

EXAME ouviu 15 especialistas sobre os melhores papéis e estratégias para quem pretende fazer da bolsa a sua previdência

Rossi: o plano é ter uma renda de 12 000 reais por mês
Foto: Germano Lüders Por Giuliana Napolitano e Juliana Garçon

EXAME Há três anos, o administrador de empresas Marco Aurélio Rossi traçou uma meta ambiciosa: aposentar-se em 2024, aos 60 anos, com uma renda mensal de 12 000 reais. Para isso, tomou duas medidas. Primeiro, discutiu o plano com a esposa e as duas filhas para combinar quanto a família teria de poupar todos os meses. Depois, começou a comprar ações. Hoje, 85% da reserva destinada à previdência está na bolsa e apenas 15% em aplicações conservadoras. Rossi investe em apenas cinco papéis -- Gerdau, Petrobras, Usiminas, Vale do Rio Doce e Weg. "É isso que vai garantir minha aposentadoria", diz ele. Ninguém se arrisca a fazer uma estimativa de quantos investidores como Rossi existem no país. Quem trabalha nas corretoras em contato direto com os clientes, no entanto, tem certeza de que o número está aumentando. A parte do mercado mais mensurável, a dos planos privados de previdência que aplicam em ações, não deixa dúvidas: produtos incipientes até dois anos atrás, agora já representam 15% do mercado.

O motor dessa mudança é um só: a busca dos investidores por retornos superiores ao da renda fixa. Trata-se de uma estratégia que faz todo sentido. "Bolsa combina perfeitamente com aposentadoria, porque ambas olham para o longo prazo", diz Aristides Jannini, diretor executivo de gestão de recursos do banco WestLB. Nem todas as ações do mercado, porém, são recomendadas para quem pretende ligar seu futuro financeiro ao desempenho dos pregões. "Para ter sucesso, o poupador precisa selecionar os papéis mais adequados a seu objetivo", diz André Lago Jakurski, gestor de renda variável da Mellon Global Investments. Foi essa seleção que EXAME fez nas últimas duas semanas. Foram consultados 15 especialistas de bancos, corretoras e gestoras de recursos, que indicaram as dez melhores ações para quem vai usar os recursos aplicados na bolsa em até 20 anos como renda na aposentadoria.

O primeiro conselho dos especialistas é investir em empresas de setores reconhecidamente promissores, que tendem a apresentar resultados acima da média do mercado nos próximos anos. "Não vale a pena apostar em ações mais especulativas, que só têm fôlego de curto prazo, porque os riscos são altos e os ganhos fazem pouca diferença quando se olha para mais de uma década", diz Kelly Trentin, analista-chefe da corretora SLW, de São Paulo. Como o cenário mais provável é de continuidade da queda da taxa básica de juro e crescimento da economia brasileira, são vistas com bons olhos as companhias que abastecem o mercado doméstico e lucram com o aumento da renda da população. Os destaques são bancos, siderúrgicas e empresas de infra-estrutura.

UMA TENTAÇÃO QUE o investidor deve evitar ao olhar para o futuro é apostar em empresas que só devem começar a entregar bons resultados daqui a alguns anos. "Perde-se a chance de aplicar em papéis que são prósperos desde já", diz Jakurski, da Mellon. É o caso, segundo ele, da maioria das construtoras que abriram capital recentemente. "O preço dessas ações já leva em conta a estimativa de que as companhias vão dobrar ou triplicar suas vendas no futuro, o que pode demorar ou simplesmente não acontecer." Alguns riscos, entretanto, o investidor de longo prazo pode correr. Como vai deixar seu dinheiro aplicado na bolsa por vários anos, ele pode procurar empresas que estejam passando por longos processos de reestruturação. É o caso da estatal de energia elétrica Eletrobrás. "Estão sendo implementadas melhorias de gestão que devem diminuir o grande desconto que o preço da ação tem frente a outras companhias do setor", diz Daniel Gorayeb, analista da corretora Spinelli.

Outro conselho dos especialistas é garimpar boas pagadoras de dividendos. Algumas empresas de capital aberto chegam a entregar aos acionistas o equivalente a 10% do valor de suas ações na forma de dividendos. Mesmo que o papel ande de lado durante um ano, o acionista consegue ao menos embolsar os dividendos. "Para maximizar os ganhos, é preciso buscar empresas que tenham negócios sólidos e chance de prosperar nas próximas décadas, senão vira vôo de galinha", diz George Sanders, estrategista-chefe da gestora de recursos Infinity. Por isso, Cemig e Weg estão entre as indicadas pelos especialistas. Está fora da lista, porém, uma das maiores pagadoras de dividendos da bolsa, a Souza Cruz. "O setor de fumo é arriscado e pouco promissor, porque está sujeito a mudanças de regras", diz Sanders.

Tão importante quanto fazer a seleção de bons papéis é acompanhar o desempenho desses investimentos ao longo dos anos. "Não dá para comprar hoje e só voltar a olhar para as ações daqui a uma década", diz Robert Wieselberg, responsável pelos serviços de alta renda do Real ABN Amro. O ideal, segundo os especialistas, é reavaliar a carteira uma vez por ano para identificar possíveis mudanças de cenários. "Turbulências como a da última semana acontecem e o investidor não pode mudar sua estratégia por causa delas", diz Marcelo Xandó, sócio da gestora Verax Asset Alocation. "Mas se houver uma recessão na economia americana, por exemplo, o Brasil pode crescer menos e, nesse caso, as perspectivas para a bolsa se alteram. Aí, sim, mudanças se justificam." Os especialistas recomendam ainda acompanhar de perto os resultados das empresas, ler relatórios de bancos e corretoras e participar de assembléias de acionistas -- por isso, a carteira deve ter de cinco a dez ações. É o que faz Marco Aurélio Rossi. "Invisto em apenas cinco ações porque preciso de tempo para acompanhá-las", diz ele.

Para os especialistas consultados por EXAME, a recompensa para quem seguir todas essas recomendações pode ser um retorno de 15% ao ano pelas próximas duas décadas. Tendo essa estimativa como base, o investidor pode fazer alguns cálculos e tentar prever seu futuro financeiro. Partindo do zero, quem planeja se aposentar com uma renda vitalícia de 15 000 reais por mês -- um pouco acima da desejada por Marco Aurélio Rossi -- precisa aplicar 3 500 reais por mês pelo prazo de 20 anos. O esforço, de acordo com cálculos da empresa de planejamento financeiro FS-Advisors, deve gerar uma reserva de 4,5 milhões de reais em valores de hoje. Quando decidir de fato se aposentar, o investidor pode seguir por vários caminhos. Uma alternativa é continuar na bolsa, uma opção de risco. Outra é buscar aplicações mais conservadoras, como fundos de renda fixa e caderneta de poupança. Há ainda a chance de contratar um plano de previdência privada. Seja qual for a opção, quem efetivamente conseguir juntar 4,5 milhões passará a ter outro problema, esse bem mais prazeroso: decidir a melhor forma de curtir a aposentadoria e gastar o dinheiro acumulado.

Ao longo dos últimos 40 anos, o aposentado paulista Luiz Barsi Filho dedicou-se a comprar uma quantidade considerável de ações. Barsi, de 68 anos, é atualmente o maior investidor pessoa física do Banco do Brasil. Também tem sozinho cerca de 4% da Forjas Taurus, fabricante de armas e ferramentas, e da Unipar, um dos maiores grupos petroquímicos do país. É ainda acionista minoritário da Embratel, posição que o colocou frente a frente com o mexicano Carlos Slim, controlador no Brasil da empresa de telecomunicações -- Slim luta para ter em mãos 100% do capital da Embratel. Mas minoritários como Barsi negam-se a vender suas ações. "Slim é um empresário inteligente e bem-sucedido, e se pretende fechar o capital da Embratel é porque espera lucrar muito com ela", diz Barsi. "Diante dessa perspectiva, faço questão de continuar como seu sócio." Por posições como essa, Barsi é um exemplo acabado de um tipo de investidor que começa a se destacar no mercado brasileiro -- aquele que busca ganhar dinheiro não com o sobe-e-desce diário do preço das ações, mas com os dividendos, a parte do lucro das empresas distribuída entre os acionistas. "São aplicadores com o olho no médio e no longo prazo", diz José Hugo Laloni, diretor da consultoria LLA Investimentos. "Para eles, o que importa é comprar ações de empresas sólidas e com boas perspectivas de crescimento." Foi exatamente essa a estratégia de Barsi nas últimas quatro décadas -- acumular ações de uma dezena de empresas consideradas prósperas e boas pagadoras de dividendos. Sua meta, desde o início, era poder viver com os rendimentos das ações após a aposentadoria. Com a renda dos dividendos, Barsi leva uma vida confortável e, dizem alguns amigos, tem um patrimônio considerável. Mora em um condomínio fechado no interior de São Paulo, viaja para a Europa quando quer e, ao menos duas vezes por ano, passa temporadas em Buenos Aires, sua cidade predileta. "Consegui o que queria", diz. "Não dependo das migalhas da Previdência Social e tenho uma renda generosa."

Segundo analistas de investimentos, é possível repetir a trajetória bem-sucedida de Barsi. A perseverança de anos de poupança no mercado de capitais pode render cifras milionárias. A pedido de EXAME, a consultoria financeira Economática fez as contas para ver qual seria o retorno de quem investiu 1 000 reais em cada uma das 111 empresas listadas na Bovespa em 1987 (e que permanecem ainda hoje) e reinvestiu todos os dividendos pagos nos últimos 20 anos na compra de mais ações das mesmas empresas. As cinco companhias mais lucrativas do período transformaram o investimento inicial somado de 5 000 reais em um patrimônio de 950 000 reais em ações que pagam um total de cerca de 35 000 reais por ano em dividendos. No passado, poucos investidores aproveitaram essa oportunidade. "Dos brasileiros que investem regularmente na bolsa há mais de 20 anos, nem 1% preocupou-se em acumular dividendos desde o começo", diz Milton Milioni, conselheiro da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais.

O tempo como aliado

Quem há 20 anos aplicou 1 000 reais(1) em cada uma das empresas abaixo e reinvestiu os ganhos tem hoje rendimento anual de 35 150 reais com os dividendos. Por mês, a renda é de 2 930 reais. Confira abaixo o desempenho de cada ação

Dividendo anual(2)

Telesp ON
20 800reais

Banespa ON
6 140reais

Vale do Rio Doce ON
4 600reais

Unibanco ON
2 400 reais

Lojas Americanas PN
1 210reais

(1) Em valores de hoje, atualizados pelo IPCA
(2) Caso a empresa pague nos próximos 12 meses o mesmo valor dos 12 meses anteriores.

Fonte: Economática



Mais recentemente, no entanto, o interesse começou a crescer. Um dos termômetros desse despertar é a expansão dos fundos de dividendos, focados na compra de ações de companhias que pagam os melhores proventos. O fundo do Unibanco, um dos mais antigos, criado em 2000, cresceu 14% desde o início do ano -- resultado acima da média dos demais fundos de ações, que tiveram aumento de 10% no mesmo período. "Nos anos 80, o mercado de capitais no Brasil perdeu credibilidade em razão das várias crises e, por causa dessa lacuna, temos dois tipos bem específicos de investidores em ações", diz André Caminada, da Victoire Finance Capital, empresa de gestão de investimentos para a alta renda. "Há os maiores de 60 anos, que compraram ações na década de 70 e nunca venderam, e os jovens, que agora estão descobrindo o valor dos dividendos e aprendendo a poupar com as ações."

O aposentado Barsi trabalhou como operador da bolsa por 32 anos, e esse histórico ajuda a explicar o sucesso de suas escolhas ao longo dos anos. "Mas não é preciso ser profissional para garantir a aposentadoria com ações", diz ele. "A principal arma é a disciplina." Barsi criou três regras para não perder a motivação. Primeiro, aprendeu a estudar metodicamente a empresa por trás da ação. "Nunca segui um palpite na hora de escolher o papel", diz ele. "Ao comprar a ação nos tornamos sócios da empresa, talvez para o resto da vida. Por isso, é preciso ter certeza de que aquele negócio está sólido, é rentável e tem potencial para crescer no futuro." Feita a escolha, chega a hora de consolidar a posição como acionista, reinvestindo os dividendos na compra de mais ações da mesma companhia. A terceira regra criada por Barsi é nunca vender um papel por necessidade. "O dinheiro não pode ser gasto em hipótese alguma por uns 20 ou 30 anos", diz ele. "Nunca compre ações com um recurso que faça falta para outro investimento, como a compra de um imóvel ou de um carro. Só tire o dinheiro de uma ação se já tiver em vista outra mais promissora." Como prova seu exemplo, qualquer pessoa pode formar a própria carteira e gerenciá-la se fizer o dever de casa. "Quem não tem tempo, competência e principalmente sangue-frio para acompanhar os investimentos deve entregar a carteira a um profissional", diz Adriano Blanaru, analista-chefe da Link Corretora.

Nos Estados Unidos, como seria de esperar da meca do capitalismo, a bolsa e os fundos de ações fazem parte da vida de 44% da população adulta, ou 84 milhões de pessoas. Essa penetração ajuda a explicar o tamanho do maior mercado do mundo, com giro anual de 22 trilhões de dólares. O Brasil, é evidente, ainda está longe de atingir esse grau de capilaridade, mas ocupa atualmente a honrosa terceira posição no ranking das maiores bolsas dos países emergentes. Mesmo num sistema financeiro tão desenvolvido como o americano, porém, viver de dividendos é coisa para uma minoria. Embora quase 80% dos americanos com ações declarem-se interessados em aproveitar os dividendos na aposentadoria, menos de 20% das famílias resistem à tentação de vender os papéis antes da hora. Normalmente, as ações que sobrevivem até a aposentadoria estão na carteira de investidores mais abonados, que podem fazer reservas polpudas por períodos mais longos. Entre as muitas histórias sobre o mercado americano há uma que serve de reflexão para quem pretende usar as ações na aposentadoria. Dizem que, certa vez, um grande investidor confidenciou ao banqueiro JP Morgan que não conseguia dormir de tão preocupado que ficava com suas ações. Morgan respondeu sem hesitar: "Sell down to the sleeping point". Em bom português, venda até o ponto em que você consiga dormir com as perspectivas de ganhos e perdas.